terça-feira, 5 de abril de 2011


 EDUCAÇÃO FÍSICA E EVASÃO ESCOLAR

JUSTIFICATIVA
    A participação decrescente dos alunos do ensino básico tem sido alvo de preocupação de professores e investigadores interessados neste fenômeno. A participação de todos os envolvidos no processo de ensino aprendizagem é uma condição para a formação para a cidadania e a inclusão social. Assim, compreender a não participação nas aulas mostra-se fundamental para melhoria do processo de ensino aprendizagem da educação física escolar, o que pode promover uma melhor adesão dos alunos nas aulas.
    O presente estudo pretende contribuir para melhoria da compreensão do fenômeno da não participação nas aulas de educação física de alunos do ensino médio, através da confrontação das representações sociais de alunos de escolas públicas com as de alunos de escolas particulares.

Contexto teórico
    A não participação dos alunos de ensino médio nas aulas de educação física curricular pode ser reflexo de fatores que se inter relacionam, como idade, horários, classe social, gênero, estrutura da escola, classe social, educação familiar e etc. tendo como conseqüência alunos que gostam de participar das aulas e aqueles que preferem não participar.

    Segundo Almeida (2007) os procedimentos didáticos pedagógicos do professor também influenciam na qualidade das aulas e, conseqüentemente, na motivação dos alunos. O professor que leva a sério o que faz e que alia a sua competência técnica ao compromisso de ensinar, desperta a criatividade e conduz os alunos a reflexão através do lúdico, pode não ter alunos desinteressados ou desanimados. Ao adotar estes procedimentos, o professor leva grande vantagem sobre as outras disciplinas escolares, pois a Educação Física, por si só é uma prática motivadora e que permite abordar uma grande variedade de temas e assuntos relacionados na maioria das disciplinas existentes no currículo de uma instituição, podendo promover um ensino mais desafiador e interessante para os alunos e professores.
    Outro fator que pode ser destacado como principal origem das dificuldades ou desinteresse na educação física escolar, são os conteúdos realizados nas aulas, principalmente relacionado aos esportes. Assim como os conteúdos, as metodologias adotadas pelos professores que privilegiam apenas o esporte durante as aulas e toda a vivência escolar das crianças e adolescentes, sendo utilizado de forma rotineira e inadequada no ensino fundamental e no ensino médio, em que os alunos praticam as mesmas atividades, muitas vezes sem um planejamento adequado realizados pelos professores nas aulas, parece ter como conseqüência a evasão nas aulas de educação física.
    “Assim como o fracasso escolar leva ao abandono da escola, o fracasso esportivo, a não obtenção do desempenho esperado ou desejado e custos psicológicos ou fisiológicos altos, pode levar ao abandono da prática de atividades físicas na escola”.

    Para Marzinek e Neto (2007) os esportes no ensino fundamental são atividades atraentes e criativas se bem empregadas, mas para os alunos do ensino médio não há um interesse em aulas relacionadas ao esporte em geral ou a conteúdos voltados para um determinado esporte, tais como fundamentos, regras e etc.. Segundo os autores não existe interesse em praticar o esporte como um conteúdo sistematizado. Os alunos só querem jogar como recreação, sem maiores compromissos, talvez pelo desgaste em suas vivências nos anos anteriores.
    É freqüente observar alunos que só participam das aulas se o conteúdo for algo que lhes agradem, nesse sentido, ninguém melhor do que os próprios estudantes para responderem como gostariam que fossem as aulas de educação física.
    “Os alunos até gostam da educação física, porém não compreendem de forma mais profunda. Talvez esse posicionamento seja reflexo da própria postura indecisa dos professores, pois estes não vêem tal componente curricular com possibilidades de mudanças de comportamento e possibilidades de crescimento pessoal e social. Alunos e professores precisam se conscientizar de seus papéis dentro da escola, com a finalidade de atingir focos mais importantes (criação, criticidade, transformação, discussão) que a simples transmissão e reprodução de conhecimentos.”(PEREIRA e MOREIRA, 2005, p. 121)
    Estudo de Staviski e Cruz (2008) indicam que os alunos reclamam uma maior participação e autonomia na escolha dos conteúdos, sendo que o reflexo disto poderia ser uma aula desorganizada e sem controle para o professor, na qual cada um faria o que bem desejasse.
    A desmotivação leva estudantes preferirem muitas vezes ficar sem fazer nada ou estudar para outras disciplinas em vez de participarem das aulas.
    Desta maneira, mesmo em algumas instituições que adotam o planejamento participativo, nas quais os alunos têm maior participação nas escolhas dos conteúdos, é comum encontrar aqueles que apresentam considerável resistência e preferem não participar das aulas.
    Mesmo nas atividades de estágio supervisionado, na pouca convivência com alguns alunos nas aulas de educação física escolar, os adolescentes comentavam da importância dos conteúdos não serem pautados apenas nos jogos esportivos e nos exercícios físicos sem fins educativos. Esta argumentação revela a característica do estudante do ensino médio ser um sujeito mais crítico e contestador, buscando uma educação de qualidade e que proporcione os interesses de sua formação. Neste nível de ensino os alunos parecem diferenciar um professor qualificado e motivado de outros professores que mesmo com mais experiência e tempo de prática encontram-se sem motivação, não percebendo a necessidade de refletir, escrever ou montar um plano de aula – quando os conteúdos e as atividades acabam se repetindo no decorrer das aulas realizadas.
    Este posicionamento dos alunos pode ser uma crítica construtiva, pois os mesmos estariam reivindicando uma mudança de comportamento e metodologia dos professores e a adoção de um componente curricular que traga maior crescimento pessoal e social para os mesmos. Ao que tudo indica, em caso contrário, os adolescentes podem apresentar desmotivação não só nas aulas de educação física escolar, mas também a desenvolverem um desinteresse nas práticas corporais fora de ambiente escolar pelo resto de suas vidas.



    Ouriques et al. (2008) destacam a importância de conhecer o público alvo a fim de promover maior adesão e permanência nas atividades praticadas pelos adolescentes. Partindo deste princípio, os professores devem inserir atividades que proporcionem prazer e os conteúdos respeitem os interesses de proporcionar a inclusão de adolescentes nas atividades físicas, o que facilita o processo de ensino-aprendizagem.
    A partir do momento em que os alunos são inseridos em atividades e grupos que lhes proporcione prazer, pode ocorrer a melhoria na motivação. Assim, o prazer nas atividades realizadas pode ser uma ferramenta de inclusão, por estimular a participação.
    Darido (2005) fortalece o tema, falando sobre professores de educação física desatualizados e aulas ultrapassadas, sugerindo que o problema reside em encontrar alternativas para a não exclusão. Assim, a autora recomenda o repensar a prática pedagógica num processo permanente de reflexão-ação, a fim de torná-la permanentemente renovada e acessível a todos.

Apenas dois alunos das escolas privadas responderam que tinham motivação para participar das aulas, outros 25 alunos consideraram-se desmotivados. A desmotivação pode justificar o fato dos estudantes preferirem ficar sem fazer nada ou estudar para outras disciplinas, em vez de participarem das aulas (Staviski e Cruz, 2008).






    Na visão do aluno nº 27 que pertence a uma escola pública, as aulas de educação física não são colocadas no mesmo nível de importância das aulas de outras disciplinas:
    “... acredito que além de serem importantes, possibilitam uma convivência com outros alunos, mas me preocupa outras matérias para estudar.”
    Diferente da resposta anterior, o aluno nº 14 de uma escola privada oferece uma outra opção encontrada com certa regularidade no ensino médio:
“…tenho medo de me machucar, pois sou atleta federado e já pratico esporte”.
    Pode-se observar em ambas as respostas acima, interesses e argumentos diferenciados, mas que levam a mesma problemática: a falta de interesse e a desmotivação, reproduzindo a não participação nas aulas de educação física. Na primeira resposta percebe-se a perspectiva dicotômica que permeia o meio social, com a sobrevalorização intelectual e subvalorização das atividades corporais. Apresenta-se como uma prática comum entre estudantes do ensino médio utilização do tempo de aula de educação física para estudar para o vestibular e outras disciplinas escolares. O que revela a maior valorização das atividades intelectuais em detrimento de atividades de formação integral, mas que não são percebidas como úteis para o momento do vestibular, que funciona com um marco na vida escolar. As aulas de educação física são consideradas desnecessárias. Assim, apesar de alguns gostarem das aulas, não participam.

  Na segunda, a confirmação de que mesmo sem amparo legal, atletas que cursam o ensino médio são dispensados das aulas. Seria uma boa reflexão saber por que alunos que participam do esporte competitivo não gostam das aulas curriculares. É possível que encontremos argumentos nem sempre presentes na literatura da área. Uma hipótese é de que o esporte competitivo seja para estes sujeitos mais desafiador do que as atividades escolares.
    A argumentação a seguir,
“… as aulas são sempre repetitivas e não tem nada interessante!” (sujeito nº 7 – escola privada)
    pode ser uma reivindicação dos alunos quanto a alteração de comportamento e metodologia adotados nas aulas (Staviski e Cruz, 2008). Contudo, há de se ponderar que nas investigações com não participantes, estes correspondem a uma quantidade pequena de indivíduos se comparados com aqueles que participam regularmente.
    Nota-se com isso que deve haver uma preocupação com o aprofundamento e ampliação dos dados, para ajudar solucionar o fenômeno da evasão nas aulas de educação física escolar.
    A tabela 2 informa quantitativamente, a avaliação dos alunos das aulas de educação física em suas escolas. Pode-se identificar que os alunos reivindicam uma melhor qualidade na realização das mesmas, o que poderia aumentar o número de participantes nas aulas.
Tabela 2. Avaliação das aulas


    A crença popular de que escolas pagas devem ter aulas de melhor qualidade do que as escolas gratuitas não são confirmadas nesta investigação, visto que a maioria dos alunos de escolas privadas avaliaram as aulas como regulares ou ruins. No entanto, este mito encontra-se presente nas representações dos alunos de ambos os grupos - quando questionados se existe diferenças nas aulas no ensino público e no privado, dezenove sujeitos (dez de escolas públicas e nove de escolas particulares) responderam que não achavam as aulas semelhantes enquanto oito alunos achavam que sim.
    Informações dadas por alguns alunos ilustram esta situação:
    “ eu não conheço o trabalho de outras escolas, mas com certeza a particular deve ter mais recursos.” (Aluno nº 25 - escola pública);
    “porque nas escolas públicas os professores não tem materiais, etc, que são necessários para uma boa aula.” (aluno nº 2 - escola privada);
    Nota-se que apesar de ambos os grupos reclamarem de aulas chatas e repetitivas, quando abordamos as semelhanças e diferenças entre as escolas públicas e privadas, apareceram respostas com idéias opostas no que se diz respeito a recursos materiais e financeiros enquanto não foram abordados assuntos ligados aos conteúdos e metodologias utilizados pelos professores.
    Fica claro que há uma falsa impressão de que por ser escola pública e ter menos recursos não pode haver aula de qualidade. Via de regra o senso comum não explica outros fatores que podem influenciar na qualidade das aulas levando a efeitos opostos ao esperado: escolas privadas com muitos recursos e os professores com dificuldades em realizar seus conteúdos ou não instrumentalizá-los para a formação dos alunos.
    Os alunos complementaram as suas respostas expressando o que seria necessário para que as aulas fossem melhores, melhorando a relação professor-aluno.
    O pensamento dos alunos pode ser representado nas seguintes respostas:
“As aulas deveriam variar mais evitando sempre repetir as mesmas coisas.” (aluno nº 06 - escola privada);
“… mais dedicação nossa e da parte do professor também!” (aluno nº 26 - escola pública);
    Os argumentos dos alunos de ambos grupos expressam opiniões parecidas quanto a qualidade das aulas de educação física escolar, manifestando que são necessários melhores condições de ensino, a competência e o compromisso do professor e maior compromisso e participação dos alunos.
Conclusões e sugestões
    Certos de que a área de educação física escolar possui uma influência primordial no desenvolvimento dos alunos, os professores de educação física devem assumir suas responsabilidades como educadores para que possam ser mais valorizados profissionalmente.
    Embora a educação física escolar seja uma disciplina importante no aprendizado e na formação do cidadão, a disciplina ainda não é percebida pela sua relevância.
    Os dados levantados devem estimular novas reflexões sobre os pensamentos e atitudes sociais voltadas para as aulas da educação física escolar, a fim de refinar as metodologias de trabalho para que os adolescentes prefiram e queiram participar das aulas de educação física nas escolas.
    O professor é um mediador, facilitador e transmissor de conhecimentos nas suas aulas. Sendo assim, é o principal responsável para transmitir e oportunizar a construção de conhecimentos aos seus alunos com um embasamento teórico para complementar a pratica. Enfatizar mais o aspecto social, motor e cognitivo do indivíduo, tornando-o um ser humano mais apto a realização das atividades do cotidiano e de sua vida pessoal, parece ser um caminho mais razoável do que a prática descontextualizada de esportes formais. Para tanto, o desenvolvimento de competências e a atualização constante do professor se faz necessário.
    Por outro lado, percebe-se que as campanhas de valorização da prática regular de atividade física, não se encontra generalizada em todo o público escolar. O que se percebe é que as atividades corporais na escola ainda são percebidas como uma prática sem importância na formação dos alunos.
    Acredita-se que pesquisas que venham observar um número maior de indivíduos poderão aprofundar as discussões estabelecidas aqui. Pensamos que comparar as opiniões de não participantes com as expectativas de alunos que participam regularmente das aulas de educação física, pode favorecer a compreensão do fenômeno em questão.

Referências bibliográficas
  STAVISKI, Gilmar e CRUZ, Whyllerton M.. Aspectos Motivadores e Desmotivadores e a Atratividade das aulas de Educação Física na percepção de alunos e alunas. EFDeportes.com, Revista Digital. Aires, ano 13, n 119, Abr. 2008. http://www.efdeportes.com/efd119/aspectos-motivadores-e-desmotivadores-das-aulas-de-educacao-fisica.htm
DARIDO, Suraya Cristina e ANDRADE, Irens. Educação Física na escola: Implicações para a prática pedagógica. Rio de Janeiro – RJ: Editora Guanabara/Koogan S.A., 2005.

OURIQUES, Isabel C.; SOARES, Amanda; AZEVEDO, Adriana C.; SIMAS, Joseani P. N. Adesão e Permanência no Projeto de Dança educacional da Secretaria Municipal de São José. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, ano 13, n 119, Abr. 2008. http://www.efdeportes.com/efd119/adesao-e-permanencia-no-projeto-de-danca-educacional.htm

MARZINEK, Adriano e NETO, Alfredo F. A Motivação de adolescentes nas aulas de Educação Física. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, ano 11, n 105. Fev. 2007.

PEREIRA, Raquel Stoilov e MOREIRA, Evandro Carlos. A Participação dos Alunos do Ensino Médio em Aulas de Educação Física: Algumas Considerações. Revista da Educação Física., Maringá: UEM, v. 16, n 2 . p. 121-127, 2005.

ALMEIDA, Pedro Celso. O Desinteresse pela Educação Física no Ensino Médio. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, ano 11, n 106, Mar. 2007. http://www.efdeportes.com/efd106/o-desinteresse-pela-educacao-fisica-no-ensino-medio.htm

4 comentários:

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  2. Este trabalho esta maravilhoso!

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  3. Olá Pessoal!!!
    Gostei bastante do blog de vocês. Espero que possam na trajetória profissional utilizar da ferramenta, mediando conhecimentos.
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